Loucura embutida Em vasilhames descartáveis

15mai/122

O jornalismo caolho da Veja

Quando se está afundado num poço de merda, o ideal é tentar ficar o mais quieto possível pra não espalhá-la pelo corpo todo. Era o que devia fazer a revista Veja, que se debate feito uma truta fora d'água e se cobre toda com os detritos que ela mesma criou. Depois de ter seu chefe de sucursal de Brasília, Policarpo Júnior, acusado por envolvimento com o Carlos Waterfall Cachoeira, a revista resolveu fazer campanha até contra a manifestação das pessoas no twitter. "São robôs! Robôs do PT!!!" Gritam desesperados, como aqueles porcos que vão pro abatedouro e sentem o cheiro da morte iminente.

E gritam desde que os documentos da Monte Carlo vazaram. Tentam falar que é normal um jornalista entrar em contato com fontes do submundo. São boas fontes, só esqueceram que tudo que um bandido fala é passível de confirmação e que própria Veja tem um pouco de preguiça de confirmar suas teses. O exemplo tá dentro dessa "matéria" dos robôs petistas (a Veja é capaz de criar matéria a partir do nada, é um caso a ser estudado pela física. Quem sabe não encontram as respostas para o surgimento do Universo e como se deu o big bang). A principal acusada por eles, a tal Lucy_in_sky_, de ser um robô, na verdade é uma mulher carioca de 59 anos.  Ou a Veja está equivocada, ou o PT deveria receber um prêmio nobel por criar um androide.

A sorte da Veja é que quem está sendo colocado como porta-voz das críticas à revista e convocações é o Collor! Com um acusador com tanto crédito, eu nem me preocuparia em ficar tentando rebater o que dizem. Afinal, é como ter um cagado jogando merda em quem está cagado também. Não tem como saber de que lado está vindo a sujeira. Se eu adotasse um estilo Veja de jornalismo, poderia fazer uma boa "matéria" (com os princípios físicos de criação espontânea):

Collor e a Veja juntos na desqualificação das acusações contra a revista.

O discurso inflamado do Collor na CPMI do Cachoeira é uma estratégia da Revista de jogar cortina de fumaça nas acusações de envolvimento com o crime organizado. As acusações do presidente impeachmentado contra a revista foram arquitetadas para descreditar os indícios de envolvimento do chefe da sucursal de Brasília, Policarpo Júnior, com o bicheiro Carlinhos Cachoeira. Uma estratégia arriscada, usada como último recurso pela revista. Mas a estratégia pode funcionar, pois quando alguém sem crédito acusa, tudo que ele fala vira lorota e fica simples descreditar as acusações a partir do descrédito do acusador.

Depois eu poderia consolidar minha tese absurda com alguns especialistas em retórica e teorias de opinião pública. Usando, na entrevista, um exemplo fora do contexto para arrancar uns pares de aspas para inserir na "matéria".  Aproveitaria para falar do Collor e suas peripécias de 20 anos atrás. Não entrevistaria nem a revista, nem o Collor. Simplesmente soltaria essa tese no ar e deixaria o pau quebrar até o processo chegar.

Anos passariam, recursos e mais recursos rolariam no judiciário e, quando o "direito de resposta" chegasse, seria indiferente. O dano causado seria irreversível. Mesmo eu sabendo que é uma tentativa de vingança do Collor, aquele prato gelado. A revista, quando ainda tinha algum resquício de credibilidade, publicou uma série de acusações do Pedro Collor contra o ex-presidente. Mas, de uma forma ou de outra, é muito fácil fazer jornalismo esquizofrênico. Uma pena que quem perde com essa história é a população e o próprio jornalismo.

O mais estranho é que não tem muita gente dos jornalões defendendo as investigações do seu compadre de imprensa. Sim, e é fácil entender: no tal jornalismo de repercussão, o povo fica falando do que jornalistas falaram ao invés de aprofundar e tentar comprovar verdades nas histórias. É o tal do disse que disse sobre o que o outro disse.

Se investigarem o Policarpo e ele ESTIVER CORRETO, o máximo que vai acontecer é a revista, o jornalista e todos os órgãos de imprensa saírem mais fortes. Se ele estiver errado, perde a revista e o jornalista, mas saberemos que, daqui pra frente, os jornalistas terão de ser mais responsáveis e todos os órgãos de imprensa sairão mais fortes. Se existe alguma ética, como a defendida pelos próprios jornais omissos, ela é igual pra todos. Se pedem investigações e explicações pros escândalos de governo, qual o impedimento da imprensa prestar explicações sobre seus atos? É... no olho dos outros é muito mais refrescante.

Por Daniel V. de Figueredo

26abr/122

Reflexões sobre o tempo

Algumas vezes fico imaginando o nosso sistema de trabalho escravizante e como isso nos prende a uma rotina quase sem sentido. Acorde, trabalhe oito horas, durma oito horas, gaste umas duas horas no trânsito e toda essa bobajada do nosso mundo contemporâneo. Ok, no passado era bem pior, mas alguém acha saudável o modo de vida que estamos desenvolvendo. Pode parecer até preguiçoso, mas não seria o ideal termos mais folga que trabalho duro todos os dias? Se acha preguiçoso, problema é seu, mas que tal quatro dias de trabalho e três dias de folga.

Não é preguiça, é justo. Se pararem para pensar, da forma como trabalhamos, não possuímos tempo para criar filhos, cuidar da casa e descansar. As taxas de mortalidade por coisas relacionadas ao stress aumentam exponecialmente, a nossa sociedade possui vínculos familiares cada vez mais estreitos. Pense no seu tempo diário e no seus "tempos de folga". A semana toda em seu trabalho, o primeiro dia do fim de semana, provavelmente, cumprindo uma série de obrigações - compras de alimentos, organização do lar e afins - e, no domingo, o cara está tão cansado que mal tem tempo para aproveitar o dia em família.

Eu estava conversando isso com um amigo holandes. Ele pegou um ano sabático na IBM para tentar sair do stress da rotina e não enlouquecer. A rotina nos enlouquece. Aos poucos mata nossos sonhos e planos, foi o que ele me disse. Você fica tão absorvido nela que aos poucos está morto, apenas um zumbi cumprindo obrigações, pagamentos e afins. Dae chegamos ao sistema que citei acima.

E se as pessoas trabalhassem apenas quatro dias na semana. Sábado e domingo continuariam fixos, mas, em regime de escala, você teria uma folga extra. Sim, uma folga que oscilaria semanalmente, uma semana na segunda, outra na terça e assim por diante.  As pessoas teriam mais tempo para conversar com seus filhos, colocar as coisas em dia, não se estressar tanto com a falta de tempo. Poderiam desenvolver projetos paralelos, fazer música, ir ao médico, pagar as contas, enfim, fazer tudo o que já fazemos num espaço limitado pela rotina sufocante. Seria bom para a sociedade, seria bom para a família, seria bom para a saúde das pessoas. Seria mais sobre humanidade, menos sobre dinheiro.

Ah, mas sempre tem o bom capitalista a questionar ideias sobre humanidade. Eles gritam lá de longe: "Vai ficar muito caro". Ou "As empresas vão falir". Ou até "Seu comunista miserável, tá achando ruim, vai pra Cuba!" Eles ficam loucos com a ideia de pessoas "a toa" no mundo. Para alguns, ainda trabalharíamos 12, 14, ou 16 horas por dia.  Mas uma coisa que aprendi com um capitalista de marca maior e que derruba esse argumento absurdo, quando as pessoas tem tempo livre, invariavelmente elas consomem. Ou seja, com mais tempo livre, teríamos duas necessidades maiores: contratar mais gente para suprir todas as horas semanais das nossas empresas e, por um outro lado, um acréscimo no consumo, pois quando as pessoas estão a toa, elas consomem!

Não acho que um dia verei isso funcionar, mas acho que metade dos nossos problemas é simplesmente o gerenciamento de nosso tempo. Precisaríamos de menos férias para recuperar nossas cabeças do stress anual. Precisaríamos de férias sim, mas para ter lazer, conhecer o mundo, passar tempos de qualidade com as pessoas queridas. Hoje, os primeiros 15 dias das férias são exclusivamente para descarregar o estresse, colocar algumas coisas em ordem e os outros 15 dias você tenta aproveitar.

E quem falar: nós teremos tempo na aposentadoria. Meus pêsames. Você prefere trocar sua juventude pela velhice. Quando o relógico tiver acabando a corda, você já não tem mais força motriz para fazer grandes coisas e aproveitar a vida. Hoje, infelizmente, não aproveitamos a beleza da vida, apenas sobrevivemos o dia-a-dia e vamos seguindo em frente. E do jeito que o mundo está se desenvolvendo, teremos cada vez menos tempo e seremos só mais uma engrenagem num sistema cada dia mais opressor. E a felicidade vai ser apenas uma palavra fantástica descrita num dicionário velho. Morrerá, provavelmente, com os últimos exemplares da Enciclopédia Britânica.  E a enciclopédia já deixou de ser impressa...

Por Daniel V. de Figueredo

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27mar/120

O tempo da verdade

Enquanto os clubes militares ficam soltando notas e cartinhas de repúdio ao "revanchismo" político, pessoas que não passaram pela ditadura, ou pegaram apenas seu finalzinho - jovens com seus 20-30 anos -, fazem protestos e denunciam os torturadores amparados pela "constitucionalidade" Lei da Anistia.

Na segunda-feira (26/03), em vários pontos do país, jovens levantaram bandeiras, faixas e "caçaram" os torturadores. Foram em frente suas casas, locais de trabalho e mostraram, de cara limpa, quem eram aqueles que participaram do regime e cometeram atrocidades. Registraram os fatos, rostos e corpos que foram escondidos pelos militares. Picharam a frase "Aqui mora um torturador".

Ora, como esses, que não passaram pela ditadura, podem ser revanchistas? O que querem, no fim, é apenas o direito de punir aqueles que cometeram crimes de tortura, sequestro, assassinatos e cerceamento das liberdades civis. É a única forma de garantir  que tais crimes nunca mais aconteçam. É a forma de garantir a não repetição erros históricos, atrasos, consolidações de oligarquias conquistadas à bala e a impossibilidade de denunciar os crimes cometidos por autoridades de Estado.

E quem acha que isso não pode acontecer de novo, basta saber que os mesmos que soltam cartas de repúdio e chamam a vontade de revisar a lei da anistia de "revanchismo" são os que comemoram todos os anos o dia da "revolução de 1964" - vulgo golpe militar. Sim, sim, há quem comemore o fato. Ou seja, além de estarem protegidos pela Lei da Anistia, cospem na cara da sociedade comemorando o golpe, como se ele fosse uma benção em nossa história.

Na quinta (29/03), às 14 horas,terá um ato contra a comemoração em frente ao Clube Militar, na Av. Rio Branco, 251, na Cinelândia, Rio. É mais um movimento para mostrar que aqui, de novo, não. E que não, nós não esqueceremos os crimes cometidos e que chega de ficarem impunes. Enquanto não reconhecermos os erros do passado e puni-los, deixaremos um recado de impunidade para os políticos que virão. A sociedade precisa da verdade e, também, de justiça.

Por Daniel V. de Figueredo

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22mar/120

A tal crise e os tais políticos

Enquanto o senador Ivo Cassol (PP-RO) acha que os políticos no Brasil ganham pouco, outros problemas da nossa democracia estouram no Congresso Nacional. Depois de um monte de escândalos e demissões de ministros do Governo, os partidos ficam na choradeira, como crianças desmamadas, esperando pelo naco da teta governamental. A "crise" da base aliada nada mais é do que a crise do fisiologismo político do Brasil. Da forma como se dão as estruturas de poder no país, hoje não se governa sem distribuir aos "aliados" - desde quando extorsão política é aliança? -  pedaços e lotes governamentais.

Quando em meados do segundo mandato, o governo Lula começou a distribuir poder ao barão do Maranhão e senador pelo Amapá, José Sarney, e outros tantos caciques, o que deu para perceber foi a rendição aos setores mais sombrios da nossa democracia em nome da tal governabilidade. Ou se rende, ou fique à míngua. É o que os mesmos setores, hoje, tentam fazer com a Dilma Rousseff, rendê-la. É o tal do assalto ao poder.

Qual a revolta do PR, por exemplo, com o governo? Retiraram o ministério dos Transportes das mãos da pasta. Aliás, o ministro dos Transportes, Paulo Passos, é do PR, mas não é o da preferência do partido. Afinal, os que lá estavam faziam o jogo do partido, ou seja, aumentavam as divisas, colocavam as verbas onde queria o partido, negociavam em nome do partido e não do Brasil. As revoltas dos outros partidos são semelhantes: eles foram descobertos em esquemas de corrupção e desvio de recursos e agora querem voltar ao poder, custe o que custar.

As derrotas que o governo sofre não são discordâncias dos partidos quanto às medidas, apenas uma birra de forma a pressionar o governo. No fim, quando recebem o que querem, eles voltam a votar com o governo. É uma espécie de suborno institucionalizado. Simples, prático e "legal".

O país? Bem, se ele tiver que sangrar para que consigam os objetivos, sangrará. Os políticos, lembrando o que disse o Cassol, acham que ganham pouco, acham também que o governo é dos políticos, não do povo. E enquanto a lógica governamental se der na base das trocas e chantagens políticas, o país continuará a avançar - quando avançar - com o freio de mão puxado.

Por Daniel V. de Figueredo

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20mar/120

Mais notícias, menos papel

Está chegando a hora. Sim, a hora do fim do papel. Desde sempre decretam o fim desse suporte. Primeiro com o rádio, depois com a TV, com a internet...  Segundo o estudo "State of the news media", realizado nos Estados Unidos, o consumo de notícias está sendo ampliado (Notícia do IDGNow!), mesmo que a receita das empresas com a venda de jornais e assinaturas tenha reduzido em 43% desde 2000. Mas quem diria, o que mata o meio não é o fim da palavra escrita, mas o seu renascimento.

O fim do papel, mas não do jornalismo, as pessoas buscam informações, buscam conteúdo e procuram em fontes credíveis, ou seja, os grandes portais e jornais tradicionais.  O jornalismo, ou o mero consumo por informações, torna-se mais amplo, mais atrativo e mais corriqueiro do que antes. O meio não é o fim, simples assim, o meio sempre será o... meio.

O problema ainda é como"ganhar dinheiro" com essa coisa chamada web.  Segundo o mesmo estudo, 68% das verbas publicitárias são abocanhadas por cinco empresas como o Google e o Facebook. Ou seja, os produtores de conteúdo jornalístico ainda precisam aprender como transformar esse negócio em algo rentável. Não acredito que apenas o modelo do paywall - onde existe uma assinatura para o acesso às informações - , adotado pelo NYTimes, seja o que vingará.

Outros modelos, do pago ao gratuito, poderão render lucros às empresas de conteúdo. O que não dá é para continuarem a deixar todas as verbas da internet nas mãos de cinco empresas (mais ou menos como o caso Globo e as receitas de publicidade na TV no BR)...

A notícia publicada no IDGNow anima jornalistas, apesar dos donos de veículos estarem arrancando os cabelos para conseguir manter as empresas saudáveis. Se as pessoas consomem mais informações, é necessário mais profissionais para produzir esses conteúdos com qualidade. Ou seja, depois de anos e anos reduzindo as fileiras nas redações, chega a hora, talvez, da necessidade por mais profissionais preparados para lidar com a informação.

Nisso, só uma pergunta continua certa, por enquanto: quanto tempo resta ao papel terminal?

Por Daniel V. de Figueredo

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19mar/120

O sujo e o mal lavado…

O Domingo Espetacular veiculou uma matéria ontem (18/03) sobre o Valdemiro Santiago, "apóstolo"/dono da Igreja Mundial do Poder de Deus. Aos que não sabem, antes de qualquer coisa, Valdemiro era bispo da Universal, saiu e fundou a Mundial. A reportagem-denúncia parece muito com aqueles papos do sujo falando do mal lavado. No fim da matéria, o jornalista faz perguntas do tipo: "Qual o objetivo espiritual em investir dinheiro da igreja em uma fazenda milionária de criação de gado?" Qual o objetivo espiritual, perguntei-me, em manter um aparato gigantesco de televisão, como faz o Edir Macedo.

Eu até recomendaria ver a reportagem completa, mas ela tem vinte e seis minutos de duração. Sim, vinte e seis minutos na TV! Aos que não tem paciência, farei um breve resumo: Valdemiro tem duas propriedades no interior de Mato Grosso. As fazendas, segundo a reportagem "bem direcionada", possuem duas vezes o tamanho da cidade de Jerusalém, custaram cerca de 50 milhões de reais e foram pagas pela Igreja, à vista, em dinheiro. A mesma Igreja, dona das fazendas, deve aluguéis de vários de seus templos, alguns chegando a bater o recorde do Seu Madruga, com 14 aluguéis atrasados.

Bem, acho que é um resumo. Agora, observem o seguinte: tempos atrás, li uma matéria na Época sobre a mesma igreja. Destaco um trecho do texto que basta para entender a motivação da matéria: Uma característica nova na expansão da Mundial está naquilo que o sociólogo Ricardo Mariano, estudioso de religião na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, chama de “pescar no próprio aquário evangélico”. Estudos sugerem que a maior parte dos seguidores da Mundial veio de outras neopentecostais, principalmente da Universal. Poucos eram do meio católico, tradicional fornecedor de fiéis para denominações evangélicas. “Calculo que mais de 50% dos membros da Mundial saíram da Universal, uns 30% da Internacional da Graça e o resto das demais evangélicas ou outras religiões”, diz Paulo Romeiro, professor de teologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie e autor de um livro sobre a igreja.

Nessas horas, lembro-me do Edgard Rebouças falando na aula de legislação e ética: "Siga o dinheiro", tirado do caso Watergate. É a lógica do mercado e concorrência inserido no mundo da fé. Como não dá para a Record desclassificar o produto que a Mundial vende- no fim, ele é o mesmo nas duas igrejas: curas milagrosas, descarrego, retirada de encosto e promessa de paraíso por meio do dízimo - tentam desclassificar o vendedor, ou pastor. E com uma arma do tamanho da Record, fica fácil inserir meia hora em horário nobre para bater no ex-bispo, agora concorrente. Se contar que 30 segundos de propaganda na Record, no Domingo Espectacular, custavam, em 2009, R$222,5 mil. Seria, mais ou menos, como pagar uns 11 milhões para bater no concorrente. Dá para entender como o negócio igreja é lucrativo.

No fim, o jornalismo faz o certo, de novo, por motivos escusos. É sempre o interesse do patrão a frente dos interesses da sociedade. Quando o interesse do patrão combina com os da sociedade, ótimo. Quando não, dane-se a sociedade, meu bolso tem que encher e não posso ignorar o pedido da chefia. Pois, se fosse levar a cabo a reportagem, deveria ter citado que as práticas do Valdemiro são semelhantes às praticas do Edir. No fim, o discípulo tenta superar o mestre, não é assim que funciona?

Por Daniel V. de Figueredo

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15mar/120

Expandindo e limitando

Ouvi um comentário interessante do José Godoy na CBN, pela manhã. Era sobre a enciclopédia Britânica que não imprimirá mais sua coleção de verbetes em papel, agora só no formato virtual. Nisso, ele falou de uma coisa que me fez pensar: na internet não conseguimos capturar verbetes inesperados enquanto buscamos por algo determinado, coisas que não tem nada relacionado com o assunto que procuramos. É o mesmo quando procuramos um livro e acabamos saindo com três ou quatro.

A internet abriu um leque de informações, possibilidades e caminhos novos para a humanidade. Deu a pluralidade às opiniões, aos saberes e afins. Coloca as informações para circular no mundo. Porém, nesse caso, restringe o espectro de visão. Você procura por um verbete, ele vai te mostrar o que procura e, no máximo, vai entregar verbetes relacionados ao assunto. Ou seja, restringe seu espectro de visão e descoberta. Você faz uma pesquisa no Google e ele vai te entregar aquilo que procura. A internet segmenta, fragmenta e agrupa os interesses.

Fazendo uma analogia tosca, é o mesmo que entrar, por exemplo, numa biblioteca com títulos de Direito, apenas. Você só encontrará temas relacionados ao Direito e nunca cairá, por acaso, em livro que discute sobre a Arte e sua influência no pensamento moderno. É, basicamente, a mesma coisa, a mesma premissa. A descoberta involuntária fica limitada e esse é o limite da internet.

Das sugestões de livros às propagandas, os programas e algorítimos tentam te separar por grupo de interesse. Você, dessa forma, dificilmente encontrará algo que esteja fora do seu mundo. É o mal do novo mundo, mas você não precisa saber de nada além do que você já sabe, existe coisa demais para esse assunto específico, porque experimentar algo novo?  E vamos limitando nossa visão e nosso espectro. No fim, a maioria lê dois ou três veículos, buscam por dois ou três assuntos, falam sobre quase as mesmas coisas. E assim vão seguindo na não-descoberta, na restrição da visão e na redução do pensamento. Vamos, aos poucos, perdendo a capacidade de diálogo entre conhecimentos, eles vão deixando de se relacionar, pelo menos, na internet.

Numa sociedade que passa cada vez mais tempo em rede, é algo para pensar.

Por Daniel V. de Figueredo

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13mar/120

A culpa é dos outros

Não, não foi culpa minha. Eu estava na minha faixa e aquela vagabunda invadiu, me fechou e freou o carro, não tinha como eu desviar. Na verdade,  eu não teria passado por aqui se você não tivesse me chamado para ir ao centro. E se minha mãe não tivesse me acordado para colocar os cachorros no canil, eu não teria te ligado e você não teria me chamado. Se o cachorro não tivesse latido, minha mãe não teria me acordado, eu não teria te ligado e não passaria por esse caminho e, por consequência, não teria batido o carro. No fim, a culpa foi do cachorro. O animal gerou a série de eventos que culminou na batida do carro.

Sim, é muito fácil jogar a culpa nos outros. O exemplo é inventado, mas possivelmente plausível. Enfrentamos uma série infindável de problemas, particularidades e coisas esquisitas que nos acontecem. E em quase todos os problemas, a maioria se esquiva. Fez merda? Ótimo, a culpa é do outro. Em empresas, normalmente, é o estagiário. Em casa, foi o irmão. No namoro, a culpa é do namorado. Diariamente, nos eximimos de qualquer ato decisório que possa nos diminuir ou condenar. É sempre a decisão dos outros que influenciaram nossos erros. Somos infalíveis, o problema é o outro.

Até onde isso é um aspecto cultural? Nos baseamos numa sociedade onde o erro é condenado. Lembro-me de ter postado uma palestra do TED falando sobre o sistema educacional. Nosso sistema meritocrático pune os que erram. E a punição nos coloca em uma posição defensiva e instintiva, onde o erro é um atestado de "burrice" e merece ser desprezado. E, dessa forma, quando tentamos e erramos, se pudermos, jogaremos o erro no outro.

O sistema não traz nenhum benefício ao aprendizado,  prefere a repetição certeira ao modelo empírico de conhecimento. Além de castrar qualquer possibilidade do exercício da curiosidade, da tentativa e erro e das soluções criativas, nos coloca em constante necessidade de achar culpados por nossas falhas, quando, muitas vezes, a culpa pode se restringir a um par de atitudes que tomamos. Se mudadas as atitudes, mudariam o destino de ações e evitariam novas falhas. Mas, ao invés disso, torna-se o padrão condenar os outros e, dessa forma, continuar em nossos próprios erros, sempre culpando o outro.

Mas a culpa disso  não é nossa, é dos outros.

Por Daniel V. de Figueredo

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11mar/120

Deixando a vida levar

Acordar, arrumar, sair. Pegar o carro e ir ao trabalho. Trabalhar e no fim do dia, pouco se lembrar do que fez. O piloto-automático do cérebro em pleno funcionamento. Digamos assim, quantas vezes você não se pegou fazendo as coisas por puro hábito?  Estudos deram conta que uma das causas da dificuldade de sair da rotina é exatamente o stress e os problemas. Quando estressado, o cérebro tende a automatizar as situações para evitar alguns problemas, o que na maioria dos casos apenas realimenta o stress.

O estudo, publicado na Nature,  fez o teste em ratos e comprovou: a rotina poupa nosso cérebro do stress da tomada de decisões. Mas e quando a nossa rotina é permeada por decisões equivocadas e estressantes? Nosso cérebro realimenta o stress e vamos seguindo pelo caminho no piloto-automático.  Refazemos a maioria dos comportamentos, tomamos quase sempre as mesmas decisões e, no fim, estamos presos no mesmo lugar.

E por esse motivo é tão difícil mudar. Seja para melhor ou para pior. Quando estamos com problemas e nos vemos afundados neles, o nossos cérebro se coloca no automático e a tomada de decisões fica cada vez mais difícil. Li, na Istoé, uma outra reportagem sobre um assunto semelhante. A reportagem era sobre a força de vontade e como ela deve ser exercitada. A teoria é que, como qualquer músculo, a falta de exercício nos coloca em estados de imobilidade. Ou seja, quando não decidimos racionalmente sobre as coisas com frequência, nossa capacidade decisória perde força.

Junte os dois fatores e temos uma sociedade quase robótica. Cumprindo um algorítimo pré-programado e com poucas chances de alterações. E vamos deixando levar, quase a música do Zeca Pagodinho.  Afinal, no ritmo acelerado em que vivemos, vamos aos poucos nos programando para não ter que decidir e no momento em que precisarmos do nosso poder decisório, ele estará tão fraco que pouco teremos a capacidade de mudar. Então, que tal tentar colocar o cinto ao contrário, mudar a ordem banho-café-trabalho-casa, alterar a rota do GPS mental na hora de ir à algum lugar? É mais benéfico do que parece.

Por Daniel V. de Figueredo

10mar/120

Crônica do nada

Cabeça em branco.

Não, não consigo pensar em nada.

O nada.

Aquela linha tênue entre o universo e o vazio. O tudo e o nada se complementam como o bem e o mau, o yin e o yang, ou qualquer coisa complementar, que seja.

No princípio, desesperador, depois, quase nirvana. Feche os olhos, coloque as mãos na posição de lótus e pense, ou melhor, não pense em nada. Sem opressões, repressões, digressões, transgressões e tantas são que soa à insanidade. Apenas respire e deixe as loucuras para trás.

Faça uma piada sobre isso. Ou, quem sabe, um calendário. Calendário? Sim, para marcar dias e anos que passam enquanto o nada está ali, presente. Pinte, desenhe, escreva sobre o vazio. O vazio é... cheio de coisas. Um mix de sentimentos misturados em um liquidificador potente. Quase uma vitamina de mamão com banana.

É reconfortante pensar em não pensar em nada. O nó, o desatar, o re-nó, o re-desatar. É como resetar o computador e ver que seu windows falhou e pede para entrar em modo de segurança. É seguro, sem internet e não é necessário coisa alguma. Você e sua existência. Livre das amarras e das teias universais e sociais, quase uma fogueira santa da igreja do Edir Macedo, mas sem nenhum fogo ou pastor lhe pedindo um dízimo para sustentar sua igreja, apenas... a paz do nada. Sem exu caveira, encosto, ou paradigmas sociais que deve cumprir para se inserir na sociedade.

No momento, eu não consigo pensar em nada. Nada melhor que o vazio para tragar o mundo e regurgitá-lo como algo novo, disforme e extremo. Ou você acredita na captura de seus olhos? É como um photoshop mental, você pode editá-lo, transformá-lo e destruí-lo. Amplie o zoom e verá os pixels. Adicione ruído, mude as cores. Apenas pense no nada e se dará conta da pequenez da existência. E, finalmente, esse será o seu mundo.

E então estaremos todos livres.

Por Daniel V. de Figueredo